quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Conversas d'Ouvido com Kanagawa

Entrevista com Kanagawa, projecto liderado pelo músico brasileiro Igor Pinto. Navegando nas águas do indie rock/psicadélico, editou recentemente o EP "Haunted Lovers". Nesta edição das "Conversas d'Ouvido", falamos por exemplo de outras paixões, discos de uma vida e embaraços. Descobrimos alguém bastante conhecedor da nova música portuguesa que se diz rendido ao talento de Norton, Francis Dale e I, Alexander. Nas linhas que se seguem deixem-se submergir pela "grande onda" psicadélica de Kanagawa...  


Ouvido Alternativo: Como surgiu a paixão pela música?
Igor Pinto: Olá!! Primeiro queria agradecer pelo espaço e poder falar um pouco desse meu universo por aqui. 
Então, eu acho que a minha paixão surgiu desde muito cedo, minha família sempre foi muito ligada em música; violão foi um instrumento que sempre teve em casa. No primeiro momento que eu despertei meu interesse em aprender música (que foi lá pelos 12 anos), meu pai me deu a minha primeira guitarra e me inscreveu nas primeiras aulas do instrumento, que acabei fazendo pouco tempo. Por ser muito novo, eu tinha interesse pra muitas coisas, mas serviu para aprender o básico e mais tarde procurar novas técnicas e me aprofundar sozinho.

Como surgiu o nome Kanagawa?
Bom, Kanagawa é uma cidade que fica no Japão, é o local do quadro do pintor Hokusai na xilogravura "The Great Wave of Kanagawa", eu sempre tive uma fixação muito grande por essa xilogravura, não sei explicar, mas acho que é algo na imponência que essa onda gigantesca e até mesmo caótica exerce sobre os humanos da imagem, deixando eles bem pequenos.
A imagem era um objeto decorativo do meu antigo quarto, que foi o local onde eu compus todas as canções desse projeto. Como esse processo foi algo muito introspectivo, eu quis nomear com algo que fosse marcante de dentro do meu quarto, que foi o lugar onde eu passei tanto tempo me dedicando e planejando. Então o nome estava ali dentro, de maneira quase que óbvia, estampado na parede.

Quando iniciaste o projecto, imaginaste que ias chegar ao patamar que atingiste, uma banda reconhecida da nova música brasileira?
(Risos) quem dera estar nesse patamar! Mas ainda assim, definitivamente não imaginava, inclusive, nem era a proposta! No outro dia estava lembrando do que eu pretendia fazer com essas músicas. Lá no início eu pretendia gravar simplesmente por gravar, porque era uma necessidade inexplicável apenas tirar ideias do papel e eu lembro que um dos primeiros formatos, era de gravar as músicas em "pen drives" (estilizados com a identidade visual) e entregar pra amigos e familiares. Não existia a prentensão de colocar as músicas em plataformas, ou até mesmo internet, seria outra linguagem, porque no começo eu apenas queria provar pra mim mesmo que podia fazer algo, e no final das contas tudo acabou tomando outro caminho, tomando outra proporção, que é bastante interessante também, permite que outro tipo de linguagem seja traçada.
Kanagawa - "Haunted Lovers"
Editaste recentemente o EP “Haunted Lovers, para quem ainda não o ouviu o que podemos esperar?
Quanto a letras, podem esperar músicas muito sinceras e muito pessoais. Eu acho que elas são um retrato de um momento bem específico da minha vida, por mais que as verdades mudem ao longo de um tempo, aquele momento vai estar pra sempre ali e sonoramente, eu vejo um compilado de inúmeras influências musicais que eu abracei ao longo da minha vida e com elas tentei criar algo que fosse a minha linguagem. Porém, dentro dessa linguagem, vejo muitas características dos anos 80,  já em outro momento vejo o rock britânico dos anos 90, isso tudo com um pouco do indie rock contemporâneo, que foram as minhas bases musicais ao longo da vida. 

Quais as tuas maiores influências musicais?
Eu acho que a maior influência é Radiohead, pra mim sempre foi e sempre vai ser uma banda que entrega sentimento como nenhuma outra. Porém, ao longo do processo de composição eu transitei entre artistas que viraram a minha cabeça, como Jeff Buckley, que apesar de não ser um artista novo, pra mim era novo e descobrir a trajetória desse artista me influenciou muito; ou como Bon Iver, que no processo de composição tinha acabado de lançar álbum novo o "22, A Million", que basicamente me fez enxergar um outro lado de composição; entre outros, porém esses são os maiores.

Como gostas de descrever o teu estilo musical?
Eu nunca consegui definir ao certo, até por que o EP é algo que atira pra algumas direções, porém, se tivesse que encaixar em algum "pacote", o mais óbvio (nesse momento) seria o do indie rock, talvez com uma pitada de psicodélico (risos).

Conheces alguma coisa da música portuguesa?
Sim!! E inclusive o que eu conheço eu acho incrível. Quando era mais novo me apresentaram uma banda indie chamada Norton, o primeiro CD deles,“Layers of Love United”, foi um álbum que não saia do meu Ipod lá em 2011 - na época não existiam plataformas de streaming como hoje em dia (risos). 
E recentemente, um amigo que é português me apresentou alguns artistas independentes que eu fiquei apaixonado, entre eles eu queria destacar dois: o I, Alexander, que possui músicas muito doces e sentimentais e Francis Dale, que simplesmente tá em 2049, o som dele é absurdamente bom e extremamente atual. Caso estejam lendo, sou muito fã de vocês (risos)!

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
Basicamente tudo que envolve outras áreas de artes, como arquitetura, pintura, fotografia, cinema, etc.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
A maior vantagem definitivamente é fazer show, subir no palco, trocar energia com companheiros de banda, ter aquele tempo pra poder se comunicar com todas aquelas pessoas que estão ali para te ouvir e ver. É algo que faz valer todas as desvantagens, que no caso são muitas. Mas se eu pudesse escolher a maior desvantagem, seria o desgaste emocional que música por si só traz, seja pelas verdades que você coloca ali. Ou seja até mesmo ao tentar fazer algo acontecer, é um processo longo, e esse processo leva você a se descobrir e se reinventar sempre um pouco mais, mas no final de tudo, acaba valendo a pena.

Como preferes ouvir música? Cd, vinil, k-7, streaming, leitor mp3?
Ultimamente só tenho consumido música através de streaming, o que inclusive hoje em dia se tornou algo muito doido e peculiar, pra quem gosta de consumir diferentes tipos de música se tornou algo muito mais fácil. A situação de você colocar pra ouvir aquele artista cativo, que já está na sua rotina ouvir, acabar numa rádio desse artista e se encontrar ouvindo alguma banda muito boa da Noruega, por exemplo, é algo muito comum e isso é ótimo. Pra quem gosta, ouvir música dessa forma, se torna algo bastante cosmopolita.

Qual o disco da tua vida?
O disco que mais me marcou ao longo da minha vida foi "In Rainbows" do Radiohead (que tá inclusive fazendo 11 anos). Foi o que abriu as portas pra gostar de Radiohead e perigo a dizer que é o melhor álbum de estúdio da banda. Contém os dois elementos que mais me atraem, ele é um perfeito equilíbrio entre emocional e “estranho”.

Qual o último disco que te deixou maravilhado?
Definitivamente o “22, A Million”, do Bon Iver, foi com toda certeza um disco que abriu muito minha cabeça para questões além de composição (que já é, por si só, algo digno de reflexão), mas também em questões de identidade visual, design, conceito, tudo que ele aderiu após esse álbum é algo de outro mundo.

Qual a tua mais recente descoberta musical?
Sei que a proposta da pergunta é apenas uma descoberta, mas tem duas que não têm saído dos meus fones de ouvido. Um deles é o River Tiber, que é um artista canadense incrível, cujas músicas são muito atmosféricas e experimentais. Ele teve uma música de um dos seus primeiros EPs sampleada pelo Drake e teve colaborações com o BADBADNOTGOOD, que são dois artistas que eu particularmente adoro. E outro artista é o Kevin Abstract, que foi fundador da boyband BROCKHAMPTON e ele é absurdo de bom.
Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Uma vez a correia da guitarra arrebentou no início de um show e ninguém presente tinha uma sobrando ou algo do tipo. Foram muitos malabarismos pra poder continuar o show, tive que tocar quase que o show inteiro com um pé no chão e um joelho levantado para segurar a guitarra que estava caindo, foi vergonhoso demais.

Com que músico/banda gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Com o Tyler, the Creatordefinitivamente. O "Flower Boy", que é o álbum mais recente dele, é recheado de colaborações de músicos que já sozinhos são incríveis, imagina só, a situação de esbarrar com essa galera em estúdio (risos)!

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias um dia de actuar?
Meu maior sonho é tocar fora do meu país, talvez tocar no Primavera Sound, em Barcelona, ou viver a experiência que é ir ao SXSW em Austin, Texas.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Sei que é repetitivo citar a mesma banda em 3 perguntas diferentes, mas realmente não tem como (risos)! Recentemente eu consegui finalmente ver  Radiohead, eles vieram ao Brasil e foi uma experiência artística inigualável, foi simplesmente uma aula de arte mesmo.

Que artista ou banda gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Eu gostaria muito, mas muito, mas muito mesmo ver o Frank Ocean ao vivo, porque ele é um artista peculiar. Não se sabe muito bem o que esperar dele, se ele vai lançar algo ou não, se ele vai fazer turnê ou não, deve ser uma experiência única.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) em que gostarias de ter estado presente?
O NPR Music Front Row do Volcano Choir, ou do Bon Iver, os dois tem um clima muito bom!

Tens algum guilty pleasure musical?
Não sei se é bem um guilty pleasure, porque eu assumo que gosto toda vez que toca, mas acho que a mais encaixa é "O Sol", do Vitor Kley, que de fato é um musicão.

Projectos para o futuro?
Ahhhh, muitos projetos! Esse EP começou a ser composto lá em 2014 e só 4 anos depois que ele tá aí no mundão. Ao longo desse tempo surgiram muitas ideias novas de músicas que estão sendo trabalhadas, músicas que apontam em outras direções das que já foram vistas no EP, ou até mesmo ideias para clipes futuros. Ainda tem muita coisa que o Kanagawa precisa fazer, esse foi um dos primeiros passos. 

Que pergunta gostarias que te fizessem e nunca foi colocada? E qual a resposta.
Honestamente, acho que a entrevista cobriu tanta coisa legal que ainda não tinha tido a oportunidade de ter respondido, que não consigo imaginar mais nenhuma pergunta, vocês estão de parabéns (risos)!

Que música de outro artista, gostarias que tivesse sido composta por ti?
Eu gostaria de ter composto "Young Passenger", é a música que encerra o álbum dos amigos da Two Places At Once e eu arrisco a dizer que é a melhor música deles. Toda vez que escuto ao vivo fico arrepiado.

Que música gostarias que tocasse no teu funeral?
Toto – "Africa" - com toda e definitiva certeza! Inclusive, que fique anotado pra quem for ao meu funeral!

Obrigado pelo tempo despendido, boa sorte para o futuro.
Guardamos o melhor para o fim e anos de terminarmos ficamos ao som do Single "The Great Wave"...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Follow by Email