quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Conversas d'Ouvido com Vasco Vilhena (Urso Solar)

Entrevista com Vasco Vilhena, músico nacional, que se estreou em 2014 com o disco "treze", viajando pelos caminhos do jazz, piscando o olho ao indie pop, a bordo da sua voz delicada, que nos transporta para um sonho acordado.   Recentemente reinventou-se e vestiu a pele de Urso Solar, um "Mensageiro da Natureza". Um disco de amor, que não pretende sê-lo. Um registo que nos obriga a pensar e se reveste de uma certa interioridade. Nas linhas que se seguem podem conhecer um pouco melhor a simplicidade profunda deste artista, em mais uma edição das "Conversas d'Ouvido"... 


Ouvido Alternativo: Como surgiu a paixão pela música?
Vasco Quando tinha 11 anos e queria ser DJ. O meu pai comprou-me uma guitarra acústica e disse-me para tocar música a sério (risos). Não posso estar mais grato! Por outro lado, agora já poderia ser um DJ de renome. Enfim, trilhos!

Como surgiu o nome Urso Solar? Podemos encarar a personagem como um alter-ego?
Surgiu muito por influência do Coelho Radioactivo, sem ele saber. O nome sempre me transportou para um universo alternativo e julgo que foi uma maneira de imitar o processo. Também aprecio a forma como as suas canções são abordadas e cheguei à conclusão de que precisava de me deixar de fazer coisas complexas e fazer coisas musicalmente mais simples, com letras mais profundas. Certa vez, lancei-me ao piano com esta ideia em mente e consegui pôr isso em prática. Foi assim que surgiu a personagem e a canção Urso Solar. Embora vista a sua pele neste disco, não sei se se pode chamar de alter-ego. Não é uma personalidade com que me possa identificar, nem um “outro eu”, no sentido mais cru da expressão. É somente um personagem ao qual dei e ceifei vida no decorrer deste disco para passar uma mensagem.
Vasco Vilhena - "Urso Solar"
O álbum “Urso Solar”, foi editado no passado dia 14 de Setembro, para quem ainda não ouviu o que podemos esperar?
Hmm, não sei bem como dizer sem estragar a surpresa! Diria que é uma audição tranquila, com alguns refrões contagiantes, outros momentos um pouco mais densos. Sou, no entanto, suspeito. Mas se quiserem um ponto de partida, sugiro ouvirem a "Urso Solar", a "Pele" ou a "Osso!"

Podemos ler algures que depois do disco “treze” (2014) “tiveste vontade de mudar de pele e parar de escrever canções de amor”, parece-nos que não conseguiste, o amor continua presente? (risos)
Tenho uma explicação um bocado densa e não muito óbvia para essa questão. O conjunto "Pele", "Carne" e "Osso" corresponde às únicas canções de amor no disco, que têm o seguinte propósito: cativar a atenção do ouvinte com músicas fáceis de ouvir. Acontece que, depois do Urso Solar sair da Floresta Polar para tentar fazer passar alguma mensagem, o seu insucesso vai desmaterializando o próprio do Urso, camada por camada, em Pele, Carne e Osso. Sinto que é uma forma eficaz de passar a mensagem, porque para se chegar à atenção das pessoas, é preciso uma derradeira força, algo de gigantesco para as tirar da sua rotina diária para parar e pensar fora da zona de conforto. E a partir do momento em que o ouvinte já ouviu as músicas mais confortáveis do disco, os assuntos sérios vêm à baila nas últimas. 

O álbum “Urso Solar”, é muito mais que um conjunto de músicas, contém uma história e uma mensagem subjacente, quais as tuas maiores preocupações com o mundo actual?
A de que as pessoas não tenham as prioridades certas. Que nos deixemos governar pelo interesse económico. O disco fala sobre isso, sobre termos que ter a sustentabilidade mais em conta do que outra coisa. Antes de partirmos para outros planetas, devíamos deixar a nossa casinha arrumada de modo a podermos voltar ao nosso lar doce lar.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Acho que é claro que me deixo influenciar pelos Radiohead. Fora esses, enumero os Grizzly Bear, Jack Conte, Sufjan Stevens, Patrick Watson e mais recentemente, King Gizzard ℰ The Lizard Wizard. Já os portugueses, devo indicar Manel Cruz, Nerve e qualquer projecto que venha da Pataca Discos!

Como gostas de descrever o teu estilo musical?
Na verdade, odeio. (risos) Não sei bem dizer, acho que se encontra no espectro da Pop Rock Alternativa com alguns cheirinhos a Jazz. Não acho que Alternativa seja uma etiqueta muito forte, dado que anda na voga desde o princípio do milénio passando a ser... normativa. Mas acho que é isso. Indie, talvez?

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
Gosto de pensar que um dia haverei de publicar um romance. Gosto mesmo muito de brincar com sintaxe e fonética. Mas por agora escrevo canções e vou praticando textos longos que nunca sairão do meu disco externo! 

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
Na minha experiência tem sido fazer aquilo de que mais gosto e isso ainda não me permitir sair da alçada dos meus pais. (risos)

Como preferes ouvir música? Cd, vinil, k-7, streaming, leitor mp3?
Streaming! Adoraria mudar o hábito para vinil, mas ainda não arranjei um gira-discos decente! 

Qual o disco da tua vida?
Sinto que me repito, mas vou dizer "In Rainbows" dos Radiohead. Gostei sempre de o ouvir em diferentes fases da minha – ainda curta – vida. E faz-me sentir em paz. É como se estivesse em casa.

Qual o último disco que te deixou maravilhado?
O "Casas" do Rubel! Não tenho palavras que lhe façam justiça!
Qual a tua mais recente descoberta musical?
A voz ridícula de Miya Folick. Conhecia as suas canções há uns tempos, mas deixei de prestar atenção. Descobri, entretanto, que há um disco na calha e os seus singles são qualquer coisa de estonteante. 

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Provavelmente ter-me esquecido de um trecho de letra algures numa canção. É sempre um momento infeliz, mas espero não ter situação mais embaraçosa que essa num concerto! (risos)

Com que músico/banda gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Acho que gostava de fazer um disco de Prog-Rock com os Conjunto!Evite. Eles têm um som extremamente coeso, e acho que gostava de estragar um bocado isso. No bom sentido, claro!

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias um dia de actuar?
Não estou muito preocupado com palcos, por assim dizer. Mas acho que gostava de tocar para uma multidão simpática algures na Serra do Gerês.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Posso dizer Radiohead outra vez? (risos) No Alive de 2012, na primeira vez que os vi!

Que artista ou banda gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Crumb! Definitivamente Crumb! Quem não os ouviu que os ouça com velocidade fulminante. Os 2 EPs que têm servem para deixar água na boca para seja o que for que há para vir. 

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) em que gostarias de ter estado presente?
Acho que gostava de ter visto o Kevin Ayers, algures depois do “Whatevershebringswesing”.

Tens algum guilty pleasure musical?
Não sinto que haja algum sentido no sentimento de culpa por estarmos a ouvir qualquer coisa de que gostamos. Eu até sou um bocado snob na música que ouço, mas mesmo as Britney Spears da vida têm músicas como a "Toxic" que são inegavelmente boas. E o gosto pessoal de cada um tem a sua singularidade. 

Projectos para o futuro?
Mais discos! Outras bandas! Sair de casa dos meus pais! (risos)

Que pergunta gostarias que te fizessem e nunca foi colocada? E qual a resposta.
Qualquer coisa que me apanhasse de surpresa, fosse sobre que assunto fosse! 

Que música de outro artista, gostarias que tivesse sido composta por ti?
Nunca senti grande inveja de ter escrito as canções de outros artistas, mas gostava de ter tido a ideia do John Cage quando compôs a "4’33"". É provavelmente a forma mais eficaz de identificar música como um produto artístico, em vez de ser conotada como entretenimento. Há muitas conclusões curiosas por retirar do silêncio.

Que música gostarias que tocasse no teu funeral?
Acho que não me contentava com uma música apenas. Provavelmente até lá faço uma playlist com "A Day In The Life" dos Beatles, "Videotape" dos Radiohead, "When It Rains" do Brad Mehldau, sei lá, há tanta boa escolha…

Obrigado pelo tempo despendido, boa sorte para o futuro.

Para terminar ficamos, precisamente ao som do álbum "Urso Solar", que se encontra disponível para escuta e download, através da plataforma Bandcamp.

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