quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Conversas d'Ouvido com Terceiro Mundo Bom

Entrevista com a banda brasileira Terceiro Mundo Bom, pela voz do vocalista  Diogo Brandão. Um verdadeiro "super-grupo", que reúne nomes em destaque no cenário alternativo do Rio de Janeiro. Robson Riva (bateria), Marcos Almir (guitarra) e Guga Leão (baixo), para lá do mentor, Diogo Brandão, que já integrou projectos como Rockz e Benflos. Preparam a edição de um EP de estreia, por enquanto já podemos ouvir o primeiro single homónimo, que denota preocupações políticas e sociais. Nesta descontraída "conversa", falamos fundamentalmente de música, mas houve ainda espaço, para outras paixões, embaraços e como não poderia deixar de ser falamos do actual estado do Brasil e do Mundo...

Ouvido Alternativo: Como surgiu a paixão pela música?
Diogo Brandão: Meu pai era flautista, gravou e fez shows com a cantora Elis Regina e além de flautista, tocava violão, cantava e era ator. Minha mãe era bailarina e muito ligada a todos os tipos de arte também. Ambos me influenciaram desde que eu nasci, nem lembro da primeira vez que estive num teatro, porque era um bebé de colo. Mas meu pai morreu quando eu tinha 10 anos de idade e só fui me reaproximar da música quando tinha uns 17 anos, por influência de amigos da Bahia. Quando percebi que poderia fazer e tocar minhas próprias músicas, formei minha primeira banda e desde então, ter uma banda faz parte da minha vida. 

Como surgiu o nome Terceiro Mundo Bom? 
Inicialmente era o nome de uma de nossas músicas (música do nosso primeiro clipe, inclusive). Mas estava dentro de uma frase; “Seu sexo terceiro mundo bom...” Sexo terceiro mundo bom na minha cabeça, é um sexo sem limites, totalmente intuitivo, quando duas pessoas viram “bicho”, numa entrega total ao prazer. O baixista da banda, Guga Leão, sugeriu “Terceiro Mundo Bom” pra ser o nome da banda. Aí a interpretação ao meu ponto de vista, mudou. Vivemos no Brasil, um país de terceiro mundo, com muitos problemas sociais principalmente. Mas mesmo nesse cenário de miséria econômica e intelectual, conseguimos ser um povo criativo, que faz arte com poucos recursos e consegue fazer coisas com qualidade, apesar de tantos obstáculos. Esse é o olhar do que seria bom num terceiro mundo, como o Brasil.

Segundo sabemos todos vocês estão envolvidos noutros projectos, como é que nasceu a ideia de se juntarem nesta aventura? 
Eu conhecia o Marcos Almir (guitarrista) de encontrar pelos palcos como técnicos de palco (roadies). Ele já trabalhou com artistas como Ney Matogrosso, Blitz, Nando Reis e muitos outros. Eu trabalhei com a Pitty, Marcelo D2, Seu Jorge e tantos outros. Num desses encontros, falamos sobre formar uma banda juntos. Confesso que eu andava desanimado depois de tanto tempo de batalha nesse meio artístico, de bandas que se desfizeram e de pensar em começar tudo de novo, outra vez. Mas o Marcos me incentivou muito, me fez acreditar no meu próprio talento e isso tudo me fez acreditar, mais uma vez. Eu sugeri o Robson Riva pra ser o nosso baterista (Robson toca com o B Negão e os Seletores de Frequência), pois além de ser um músico super experiente e criativo, já era meu amigo de longa data e hoje em dia, eu só quero ter algum projeto musical com pessoas que eu admiro profissionalmente e amo pessoalmente. Robson chamou o Guga Leão (baixista), que completou o time perfeitamente. Ele tem talento de sobra, experiência e é um cara muito bom de se conviver. Um cara totalmente do bem!

As vossas músicas denotam preocupações sociais e políticas, quais as vossas maiores consternações no mundo actual?
O Brasil e o mundo estão passando por um momento muito difícil, aonde a empatia pelos outros, pelas chamadas “minorias” está completamente esquecida. Isso se reflete na nossa política, o Brasil acabou de escolher um candidato notoriamente racista, machista, homofóbico, que prometeu verbalmente tirar todas as demarcações de terras indígenas, é favorável a tortura, entre tantas outras declarações completamente despidas de humanidade. Nos EUA o Trump se elegeu prometendo expulsar os imigrantes, entre outras declarações de ódio. O Brasil e o mundo precisam de artistas que emocionem, que pensem e que façam os outros despertarem para um olhar mais humano. Queremos nos divertir, mas fazer pensar e sensibilizar os outros é uma preocupação também.

Quais as vossas maiores influências musicais?
Os grandes ícones do Rock, Chuck Berry, Little Richards, Elvis, Rita Lee, Beatles... Os grandes ícones da música em geral; Amy Winehouse, Ravi Shankar, Uakti, Radiohead... Do Samba e da MPB: Cartola, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso... É muita gente que gostamos. Resumindo, gostamos de todo tipo de música que consideramos criativa e de qualidade.

Como gostas de descrever o vosso estilo musical? 
Eu descreveria o nosso estilo musical como Rock Brasileiro Cosmopolita. Na nossa essência somos do rock, mas temos admiração por todo tipo de música produzida pelo mundo e não queremos ter nenhum tipo de amarra estética. Vamos experimentar tudo o que quisermos, sem medo.

Conheces alguma coisa da música portuguesa? 
Infelizmente conheço pouco. A famosa cantora de fado, Amália Rodrigues, que acho genial e uma banda do final dos anos 70, chamada Xutos ℰ Pontapés. Além desses poucos artistas, conheço a guitarra portuguesa, que do pouco que sei, é de origem italiana, assim como bandolim brasileiro. Ambos são bem similares e têm sonoridades muito interessantes.

Para além da música, tens mais alguma grande paixão? 
Tenho sim. É o Cinema. Sou professor de música no Brasil, esse é meu “ganha pão” mensal. Mas faço um curso de direção cinematográfica numa escola de Cinema famosa no Brasil, a Darcy Ribeiro, e fiz uma Pós Graduação em roteiro para Cinema e TV. Pretendo continuar estudando Cinema e música sempre.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico? 
A vantagem é conseguir fazer aquilo que é uma paixão, uma necessidade orgânica, humana. Ninguém faz música por que é bacana. Faz por que é uma necessidade pessoal. A desvantagem é que nesse momento político atual do Brasil, os artistas estão sendo propositalmente desvalorizados. Artista influencia as pessoas a pensarem por si próprias e isso é perigoso para quem quer governar e manipular as massas em benefício de suas próprias ideias e interesses. Então fazer com que as pessoas acreditem que artistas são aproveitadores de leis, que ganham dinheiro sem trabalhar, é um caminho para os poderosos, que realmente manipulam o pensamento das massas e influenciam as pessoas a acharem que arte não é importante. Arte estimula o pensamento crítico e isso é um tipo de ameaça para governantes mal intencionados.
Como preferes ouvir música? Cd, vinil, k-7, streaming, leitor mp3? 
Como fico o dia inteiro fora de casa durante a semana, escuto mais mp3 mesmo. Mas escutei muito CD e LP ao longo da vida.

Qual o disco da tua vida?
Difícil... Vou citar 3: “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben; “Expresso 2222”, de Gilberto Gil e o único disco de uma banda que me influenciou a gostar de Rock, “Mamonas Assassinas”. Infelizmente os integrantes dessa banda morreram num desastre de avião. Foram um fenômeno gigantesco aqui no Brasil, quando eu era um pré adolescente.

Qual o último disco que te deixou maravilhado? 
Um disco de versões do “In Utero”, do Nirvana. Chama “Heart-Shaped Tracks”. Versões realmente criativas, sonoridade incrível, com arranjos originais, de um repertório que eu já amava. Todo feito por artistas brasileiros!

Qual a tua mais recente descoberta musical? 
Olha, não é uma descoberta tão recente, mas é uma banda de amigos chamada BILTRE. Muito senso de humor e talento musical. Outra lendária aqui do Rio de Janeiro chama El Efecto. Realmente impressionante ao vivo.

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto? 
Uma vez resolvi subir nas estruturas do palco no fim do show da minha antiga banda (Rockz). Subi numa boa, mas as mãos estavam suadas e não tinha como descer sem pular lá de cima. O impacto dos pés no chão foi tão grande, que depois do show enfiei os dois pés no gelo. No dia seguinte, mal conseguia andar e tive que alugar muletas para poder pisar no chão a semana inteira.

Com que músico/banda gostarias de efectuar um dueto/parceria? 
Com o mestre Chico Buarque e com Caetano Veloso.

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias um dia de actuar? 
Adoraria tocar (actuar) nos grandes festivais de música ao redor do mundo. Entre eles, o Coachella.

Qual o melhor concerto a que já assististe? 
De Rock, o do Iggy Pop. Outro inesquecível foi The Flaming Lips. Vi os dois no mesmo dia.

Que artista ou banda gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade? 
Eu adoraria ver Eagles of Death Metal. Acho bem divertido.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) em que gostarias de ter estado presente? 
Jimi Hendrix ao vivo em Woodstock.

Tens algum guilty pleasure musical?
A banda que citei anteriormente, Mamonas Assassinas, pode ser considerada um tipo guilty pleasure musical, pois era uma banda bem cômica, de humor besteirol. Mas tirando essa, acho que gosto de todas as fases do Aerosmith e tem gente que acha meio brega. Eu gosto bastante, até das baladas mais melosas.

Projectos para o futuro?
Construir uma carreira musical internacional. Espero que gostem muito da nossa banda, pra gente ir pra Portugal sempre!

Que pergunta gostarias que te fizessem e nunca foi colocada? E qual a resposta. 
“Por que você ainda gosta de Rock?” Acredito que o Rock tem uma frequência energética que incita as pessoas a dançarem, pensarem e se emocionarem, além de estimular o artista no palco ao vivo, a dar o seu máximo na performance. Gosto de muitos tipos de música, gêneros, mas o Rock proporciona uma troca entre artista e público, única e inigualável.

Que música de outro artista, gostarias que tivesse sido composta por ti?
"Space Oditty", do David Bowie.

Que música gostarias que tocasse no teu funeral?
Qualquer uma composta por mim e que signifique algo bom pra alguém.

Obrigado pelo tempo despendido, boa sorte para o futuro.
Obrigado a vocês pelo espaço e esperamos em breve conhecer e tocar (actuar) em Portugal. Uma das nossas origens, com muito orgulho! Grande abraço!

Terminamos com o videoclipe do single homónimo, "Terceiro Mundo Bom", que antecipa o EP de estreia, que contará com o carimbo da Sagitta Records.

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