sábado, 17 de março de 2018

Conversas d'Ouvido com Anywhereoutoftheworld

Entrevista com Anywhereoutoftheworld, projecto a solo do músico Alberto Bessa, que invade as profundezas do underground numa sonoridade sombria, por vezes sinistra mas revestida de uma intensidade inquietante. Entre as maiores influências encontramos o post-punk e o dark wave, ou nomes como Joy Division, The Cure, Bauhaus e Dead Can Dance. O seu disco homónimo de estreia, foi lançado internacionalmente com o carimbo da histórica Piranha Record Store e que serviu de mote a esta edição das "Conversas d'Ouvido"... 

Ouvido Alternativo: Como surgiu a paixão pela música?
Anywhereoutoftheworld: Essa paixão devo-a aos vinis que tinha por casa e a um leitor de LP's ao qual não dava descanso. Descobri nessa altura Lene Lovich... com um disco completamente diferente de todos os outros que tinha. Creio que começou aí a minha paixão à musica.

Como surgiu o nome Anywhereoutoftheworld?
Existe clara intencionalidade no nome atribuído ao projecto. Anywhereoutoftheworld, como facilmente se entenderá, alude a uma ausência e a uma vontade nesta, remete para afastamento, negação a este espaço que nos cerca mas que ao mesmo tempo recusamos como nosso. É querer estar fora daqui e dedicado a quem sente o mesmo.
Anwhereoutoftheworld - "anywhereoutoftheworld"
Para quem não ouviu o teu álbum homónimo o que andamos a perder?
Entendo ser um trabalho que resulta de uma elaboração atenta, bem como uma abordagem que é inevitavelmente fiel às influências que o sustentam. O resultado deste processo criativo nada mais pretende ser do que um contributo para a música underground. Importa é existir vontade de o compreender, o que numa primeira audição receio ser difícil.

O teu disco foi lançado internacionalmente pela Piranha, na minha adolescência passei belos momentos nessa loja e descobri muita música nesse pequeno espaço. Ainda hoje és frequentador de lojas de discos, ou rendeste-te à internet?
Conheço a Piranha há mais de duas décadas e foi aí onde sempre fui recebendo alguma orientação e recomendação para bandas que, pelo seu tipo de sonoridade, se enquadram no estilo musical que me define. É uma loja de culto e um raro local de encontro para quem quer saber um pouco mais deste mundo.

Lemos na tua apresentação a seguinte frase: “(…) mentes preconceituosas de quem pensa que a vida reside por inteiro num tema pop de três minutos de duração”. Na tua opinião a indústria musical está em decadência?
A minha leitura acerca do tema acaba por ser consensual no meio onde me pretendo movimentar. Abomino a forma como a música, na sua forma de processo criativo que é, se continua a tratar. E infelizmente não conheço excepções em Portugal.

Como gostas de descrever o teu estilo musical?
O que desenvolvo do ponto de vista da criação resulta de uma descendência longa e alargada de influências musicais. Na génese, creio que provém muito do que a editora 4AD disponibilizou nos anos 80.
É a melhor forma que encontrei para descrever o que tenho em mim. 
Espero que seja obscuro, sinistro e grave na mesma medida e forma.
Tensão e conflito. É o que está em todos os temas.

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?

Leitura. Sempre procurei conhecer o que os outros têm para dizer e o que os motivou a empreender a escrita de um livro. Com a música tenta-se fazer o mesmo, dizer algo.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico? 

Não me vejo como músico. Trabalho na área financeira. Essa é a minha profissão.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Toda a corrente post-punk, dark wave e gótica.

Como preferes ouvir música? Cd, vinil, k-7, streaming, leitor mp3?
CD. Toda a música que ouço está nesse formato. Escusado será dizer que já tenho umas centenas.

Qual o disco da tua vida?
"Anywhereoutoftheworld", o meu :)
Ainda me fascina o resultado deste trabalho.

Qual o último disco que te deixou maravilhado?
MOTH - uma banda dinamarquesa (DKK). Seguramente o melhor CD que comprei no último ano.

O que andas a ouvir de momento/Qual a tua mais recente descoberta musical?
I TPAME I TVRAME

Com que músico/banda gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Aska. Trata-se de um dos músicos simultaneamente mais estranhos e geniais que conheço. Completamente desconhecido, e do qual é difícil encontrar a respectiva produção.
Consegue registos que são perturbadoramente belos.
Alguém que provém de um mundo perturbado e que expressa através de uma música que explora os sintetizadores de forma sublime.
A reter a enorme sensibilidade desta figura, bem presente nos seus temas.
É islandês.

Para quem gostarias de abrir um concerto?
Selofan. Mais uma formação cuja produção é espantosamente intensa. Com muito para dizer também, e com uma linguagem que só a musica pode veicular.

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias um dia de actuar?
Entremuralhas, Leiria.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Kælan Mikla

Que artista ou banda gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Qual - (William Maybelline). Das figuras mais proeminentes na cena synth punk.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) em que gostarias de ter estado presente?
Essa é fácil :) Joy Division, claro.

Projectos para o futuro?
Tenho um claro propósito. Permitir-me a criar mais e em condições que até aqui não tive. Tenho enormes constrangimentos em termos de tempo e disponibilidade. Gostaria de me poder dedicar aos meus próximos CD's de forma plena, pois não o consegui com este.

Que pergunta gostarias que te fizessem e nunca foi colocada? E qual a resposta.
O que significa a capa do meu álbum? E a resposta é o que está na contra-capa do álbum.

Que música de outro artista, gostarias que tivesse sido composta por ti?
Respeito muito a propriedade intelectual de terceiros e tomo-a apenas como algo que felizmente posso usufruir.

Que música gostarias que tocasse no teu funeral?
"TheProtagonist" - Dead Can Dance

Obrigado pelo tempo despendido, boa sorte para o futuro.

Ficamos agora ao som de anywhereoutoftheworld e do single "The Way You", extraído do registo homónimo de estreia.

2 comentários:

  1. Boa entrevista , com boas perguntas e as respostas objectivas e coerentes do Alberto , que criou um mundo ( obscuro)e muito próprio com este trabalho...quase uma soundtrack de um filme thriller de terror.
    Ficamos a aguardar mais desta sonora horror landscape...

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